sábado, 7 de outubro de 2017

Dorama: Kimi Wa Petto/You're My Pet


Sinopse: Uma mulher encontra um homem machucado dentro de uma caixa em frente à sua porta e o deixa morar em sua casa contanto que ele seja seu cachorro.

Por já ter feito uma resenha do filme coreano lançado há alguns anos, tenho certeza de que algumas pessoas sabem do que história se trata. Entre o filme e o dorama, eu li boa parte do mangá e pude perceber com clareza os pontos onde cada obra é fiel ao original e onde elas entram em conflito, seja por pequenos detalhes ou por uma discrepância absurda. Mas não há dúvidas de que a construção de história deste josei (mangá destinado a mulheres) é uma das melhores que eu já li, por mais absurdo que o enredo dele pareça.


Iwaya Sumire é uma jornalista bem sucedida que, chegando próxima aos 30 anos, começa a sentir cada vez mais as pressões sociais destinadas a mulheres da sua idade: ela ainda é solteira, não tem filhos e, segundo as pessoas ao seu redor, tão fria que chega a assustar os homens. Ou seja, ela é uma mulher normal, que conquistou coisas por si e, por não aceitar migalhas oferecidas por homens classificadas como "amor" é julgada o tempo todo! Me parece um retrato bem verídico das mulheres atualmente...
A história começa com Sumire terminando um relacionamento de anos com um cara. Depois disso, ela determina a si mesma que para que se relacione com um homem, ele precisa ter os seguintes atributos: ser mais alto que ela, ter nível educacional mais alto que o dela e ganhar mais que ela. Chegando em casa no este mesmo dia, ela encontra uma rapaz machucado dentro de uma caixa em frente à sua casa e decide ajudá-lo. Obviamente, ele gruda nela e concorda em ser seu animal de estimação em troca de casa, comida e roupa lavada. Dentre as três obras, a personagem que mais me agradou foi a do mangá. Sumire é uma mulher decida, às vezes, parece não ter coração, mas só está sendo racional para não se decepcionar. Sem contar que autora teve a preocupação de não transformá-la em uma megera ou fazer com que fosse uma personagem odiável, pois Iwaya é uma mulher inteligente, agradável, muito profissional e séria. Ela não sorri, não chora e quase nunca demonstra raiva. Já no dorama, Sumire é uma mulher morna, não tem uma tonalidade de voz firme e nem uma presença forte. É uma pessoa indiferente e que causa indiferença em quem assiste.


Goda Takeshi é dançarino, é alguns anos mais novo que Sumire, mais baixo e não tem onde morar, por isso, aceita os termos de sua nova dona sem titubear. A partir deste momento, ele assume a identidade de Momo, o falecido cachorro de Iwaya, e para ele tudo é alegria ao lado de sua mestra. Takeshi se sente atraído por sua dona desde o início por ela ser quem é e também por demonstrar sentimentos apenas em sua presença, tanto que ele a deixa lavar seu cabelo sempre que ela está furiosa ou triste. Momo é o único personagem que eu gostei em todas as versões, afinal, ele é sempre divertidíssimo e fofo, no entanto, no mangá podemos perceber que, em determinados momentos, há uma diferença quando ele age como Momo e quando age como Takeshi, pois oscila entre uma personalidade brincalhona e uma mais séria e madura.


Hasumi Shigehito é pra completar o triângulo. Um cara morno, que faz coisas mornas, quando bebe fica meio assediador (vide o episódio da viagem da empresa com os pega na baixa de capim) e que os únicos motivos para estar na história são: amorzinho da adolescência da Sumire, ganha mais, é mais alto e de mesma educação que ela. Fora isso, Hasumi é totalmente dispensável na história. O RAPAZ É UM LEGUME! Nem quando ele descobre que Takeshi é passível de participação no páreo pelo amor de nossa heroína ele serve pra alguma coisa.


Shirotae Yuri é a amiga-conselheira de Sumire. Para o bem ou para o mal, Yuri está lá. Inclusive é ela que dá o pontapé inicial para que a mocinha comece a perceber o slave to love que já tá rolando e só ela que insiste em negar. Meio barraqueira, me pareceu bem mais convincente que a própria Sumire.


Fukushima Shiori é a vilãzona que não machuca nem as moscas. Às vezes fico me perguntando onde que eles acham esses vilões que nada fazem e nada acontece. Até porque, ao meu ver, uma história com este enredo já se desenvolve sozinho sem a interferência de um 4º elemento. Shiori é a primeira - fora Yuri - a descobrir que Momo, na realidade, é humano e tenta usar isso contra Iwaya. Só tem um pequeno problema: diversas são as oportunidades que ela tem de usar esta informação contra sua rival e não faz!

Como eu disse, a história é muito boa para ser ignorada. Salvo alguns pequenos erros, como a introdução de uma pseudo-vilã e aquela enroladinha básica no desfecho pra completar 10 episódios, o desenrolar é bom, com diálogos consistentes entre um "cachorro" e sua dona e situações bem próximas da realidade e ainda bem atuais, considerando a época que foi lançado tanto o mangá quanto o dorama. De todas as atuações, a de Sumire foi a que menos me chamou a atenção, apesar de ser uma personagem que eu pessoalmente gosto muito. Vale a pena conferir.

PS: saiu uma versão 2017 do dorama!

Mensagem Subliminar:

Homem gosta de ser tratado que nem cachorro mesmo.





Por que Hollywood insiste em acabar com ótimas obras?


Como vocês devem saber, a Netflix lançou o Death Note live-action. E, como já devem imaginar, estou aqui para falar dele. Isso é uma resenha? Não! O filme é tão ruim, que não merece nem isso, o que é, de fato, muito lamentável. Quem está lendo o blog pela primeira vez, conhecendo-o através deste texto vai achar que é só mais uma dessas páginas que a autora usa pra destilar ódio. Mas eu juro que não é, até porque já falei muito bem de vários filmes, doramas e alguns animês aqui. E não é porque é sobre uma história que eu gosto que eu vou defender. Muito pelo contrário: é agora que eu devo meter o pau!
Nos últimos tempos, como já deve ser do conhecimento da grande maioria de consumidores de cultura asiática, o ocidente descobriu que do outro lado do oceano havia muita coisa a ser desbravada, como moda, comida, comportamento, música e todo tipo de entretenimento. Essa cultura de "exportar" algumas inspirações para trabalhar em cima ganhou muita força nos anos 2000, no entanto, nos últimos anos, depois do kpop, dos bias, das coreografias e das regravações de músicas em inglês, o mercado não estava mais contente e precisava americanizar algo diferente, que não estava exatamente intocado, porém não estava completamente banalizado. Sim, estou falando dos mangás/animês. Mesmo que já existissem live-actions com uma qualidade não tão boa na própria Ásia, ainda assim, conseguíamos suportar por ser um material com aval e - muitas das vezes - com influência do próprio criador da história, ou seja, a história não sofria alterações que pudessem destruí-la por completo diante dos nossos olhos. Entretanto, com a venda dos direitos das obras originais para a América, tudo mudou. Não só os atores, que deixaram de ser asiáticos, como o jeito dos personagens, a ambientação, os acontecimentos e, com isso, o desfecho das histórias.
Logo, a adaptação livre se tornou a única forma de adaptação de uma determinada obra que podemos presenciar. E, com livre, eu quero dizer LIVRE MESMO porque praticamente a única coisa que sobra da obra original - em alguns casos mais graves, nem isso - é o título.
Todo este discurso introdutório faz parecer que tudo é só um blá blá blá infinito para chegar a lugar algum, mas não é. Já passou da hora de refletirmos sobre as coisas que Hollywood tem nos oferecido e como temos aceitado isso facilmente, apenas classificando alguns materiais como bons ou ruins de acordo com nosso gosto pessoal, ignorando completamente que algumas questões são bem mais profundas do que aparentam ser.
Pegando o caso mais recente de mega produção, temos algo que dizem ser Death Note, porém não acredito nisso porque não se parece em quase nada com a obra original. Quem assistiu e deve estar com a lembrança bem viva na mente da cena onde L aparece em frente à impressa para se pronunciar para Kira, mais especificamente. Se você é apegado aos mínimos detalhes como eu, deve ter notado que havia uma bandeira ENORME do Estados Unidos atrás. Considerando que originalmente a história não se passa nos EUA e, sim, no Japão, que sofreu terríveis ataques do primeiro durante a II Guerra Mundial, temos alguns pontos conflitantes. E, voltando ao filme americano, temos um L negro, em frente à uma bandeira dos EUA. Pode ser algo bom? Pode, entretanto, também pode ser uma imagem bem problemática se pensarmos sobre os tempos de segregação racial e o quanto as repressões policiais matam negros neste mesmo país ainda nos dias atuais.
O que eu quero com este texto é chamar uma discussão sobre essa recente "vontade" de fazer dinheiro em cima de obras orientais, mas não sem antes embranquecer os personagens, catequizá-los, transformá-los em algo próximo ao que conhecemos, evitando que tenhamos que pensar muito sobre o significado das culturas, as diferenças entre elas ou tenhamos que queimar neurônios decifrando cada símbolo de um produto. Isso é algo que acontece com Death Note. O fato de deslocar a história para o outro lado do globo faz parecer que jogaram o roteiro com o que realmente acontece no desenrolar do mangá/animê no oceano e tiveram que fazer algo as pressas que resultou em uma história morna, sem muito conflitos, com roteiro mastigado, que não prende a atenção e, de quebra, culpa a mulher por todo o mal causado durante a trama. Não vou entrar no assunto de representatividade feminina porque senão teria que falar sobre Ghost in the Shell e como a escolha da Scarlett Johansson foi um plano estratégico para vendar mais ingressos de cinema não por ser uma ótima atriz ou coisa do gênero, todavia ser alguém que mexe com o imaginário masculino.
Obviamente que quem não tem nenhum contato com movimentos que discutam sobre raça e gênero, não vai entender praticamente nada do que disse, muito menos analisar, vai apenas achar que sou só mais criadora de caso na internet.
Dito isso, deixo a reflexão por sua própria conta e risco.